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LUÍS SOARES: ELEMENTOS PARA UMA BIOGRAFIA

PIN19900271 - Casal - 130x97 cm

LUÍS SOARES:

ELEMENTOS PARA UMA BIOGRAFIA

de

MARIO ANGEL MARRODÀN

 

A TAREFA DO ARTISTA LUSO-MOÇAMBICANO

LUÍS SOARES

de

MARIO ANGEL MARRODÀN

 

PERFIL E ESTATURA DE LUÍS SOARES

 

O que faz com que eu saiba o que quero incluir na minha obra, e que me esforçarei por alcançar nem que tenha de me destruir, é ter uma fé absoluta na Arte.

VINCENT VAN GOGH

La célula bella

JOSÈ ORTEGA Y GASSET

 

Pintor – inclassificável, devido às mil tendências e variedades dos seus temas -, desenhador – penetrantíssimo, pela segurança dos seus traços -, ceramista – do­minador da técnica subjugado – e escultor – experimentalista da expressão da matéria, que concebe segundo o seu estilo e conhecimentos, Luís Soares tem uma trajectória ligada a todas as normas investigativas da pintura, da escultura e da cerâmica.  As suas personagens transmi­tem uma mensagem, um diálogo gritado aos quatro ventos, depois de escutarem os seus inquiridores totémicos. Pro­vocador, com o sabor estranho que têm as calamidades em tempos de bonança, faz vibrar esse instinto heterogéneo que insere nos perfis lineares das suas figuras, com uma comunicação rara.

Reflexos de voragem e acção, temas paroxísticos, ma­téria tumultuosa, de agitação interior, perspectivados pela expressividade de uma arte diferente, actos potentes disfarçados pelas imagens evidentes de quem faz experiên­cias com as formas a partir da dedicação pessoal às suas concepções, crenças e emoções.

Esta extensa obra que é difícil de apreender – em­bora não por ser complexa – nada tem a ver com aquela arte superficial que tanto êxito obtém na sociedade dos nossos dias.  A sua, lembra uma crítica conceptual desati­nadamente elaborada: as técnicas agressivas, a original sensibilidade, os níveis de ligeireza e as formas gro­tescas que surgem graças a um estilo acrobático e cari­catural ao nível dos artistas individuais – aqueles que apoiam o logro, o assombro satírico e o talento picassiano no próprio fascínio do espectáculo pictórico.  Soares trabalha com elementos telúricos metáforas alegóricas que se aproximam da feitiçaria -, com elementos espi­rituais que se equilibram entre o estado interior e a re­alidade exterior “valleinclanizada” 1 pelo seu instinto inconsciente, que é mistura de intenção, choque, euforia, arranque emocional, ataque aos valores e ministério de  1

(N.T.)O vocábulo vem de Ramón del Valle-Inclán (c.l866­-l936), escritor galego que se inspirava na mitologia e folclore da sua região.  Sonatas, a sua primeira obra ama­durecida, expressava a decadência modernista.  Foi um re­novador do teatro contemporâneo, ambicioso, que dizia adap­tar-se a sua arte ao que chamava técnica do espantalho.  No romance Tirano Banderas descreve uma ditadura numa re­pública imaginária da América Latina.

uma arte livre.  Soares ”superstar”! …

Reunir num único comentário todos os matizes da pa­leta de Luís Soares seria quase impossível, e ainda pior descobri-la de novo.  Ainda assim, para que o leitor-es­pectador se possa impregnar das sensações provocados pelos quadros do pintor luso-moçambicano, nada melhor do que salien­tar os seus alardes inventivas da comédia patética do tem­po e da vida, bem como a problemática da sobrevivência das almas dos seus protagonistas, solucionada pelos próprios meios de expressão que utiliza.  Se o espectador fi­zesse uma ideia do que se disse, isso equivaleria a re­conhecer as dificuldades que levam Soares a pintar como que numa orgia de expressão.  Para conseguir alcançasse o que afirmo acerca do pintor em causa (a crítica à esprei­ta) que, nos aspectos técnicos, se encontra em plena criação imaginativa e de aprendizagem estética, peço empres­tadas algumas linhas à excelente pena de Maria Zembrano, interpretando assim a figura e obra de Luís Soares no seu contexto individual e analítico “O artista, ao criar, ar­remeda a criação divina e cria uma eternidade… poten­cialmente. É o jogo, o jogo profundo da arte”.

Arte na atitude gráfica de resposta do sujeito ao objecto, de realização plástica que fala por si própria de razoes modernas para perturbar a imagem – a magia da imagem diferente – resultante dos assemblages de bonecos enérgicos e formas espectrais dos recursos pictóricos, que são os seus meios habituais de expressão.  Daí esses quadros bem concretizados, que nos permitem atribuir-lhe uma parte de inexpressividade, de cálculo e de geo­metria – mais proveniente da mão que do reconhecimento – por meio da geografia visual e ambiental, ou até do âmbito natural que têm sido pilares mais identificadores do que descritivos na transfiguração do enunciado artístico.

O poliformismo de Soares patenteia firmemente a la­buta do desenhador para que as suas obras de arte tenham um pólo de atracção. É fascinante esse processo, tanto nas estruturas básicas como nos vínculos de semelhança, que o identificam, sem hiatos, nas suas diferentes normas de trabalhar (embora não antagónicas).  Não são prisões, mas sim expansões.  Se temos de o entender a partir do conteúdo da independência absoluta, não é menos determi­nante descobrir nesta os achados que despertam a fantasia do espectador, lhe mostram a diferença de uma personali­dade que desborda escolas e “ismos”, ao mesmo tempo que ensina como as suas composições inesgotáveis se conseguem manter na corrente misteriosa, inquietante, mágica e surrealista.

A linguagem específica de Soares, com certas notas de “kandinskyanismo”, constitui uma experiência pictórica que vai do real ao maravilhoso, e que ainda nos há­-de brindar com novas surpresas, sendo embora as anterio­res muitas e válidas.  Enquanto se vai interiorizando em abismos íntimos, consoante o avanço da sua presença artística o impele a encontrar-se com o seu eu, o con­junto importante das obras fica afastado, a salvo.  A espontaneidade da cor e da linha – quase uma improvisação mental, um trabalho de identificação recolhe a criati­vidade sobepujada do artista plástico Luís Soares: do seu país e do mundo, criador de um mundo pessoal!

 

LUÍS SOARES, ARTISTA MULTIDISCIPLINAR E COMPLETO

Esta síntese das diversas etapas, séries ou tendências criativas do artista luso-moçambicano Luís Soares, abrange uma manifestação antológica, com o estudo correspondente a cada parcela da obra do artista, nos géneros diferentes que tem vindo a cultivar.  Que cultiva, aliás, com rigor, invenção e técnica depurada, ou seja: a pintura, a escul­tura, a cerâmica e o desenho.  O seu trabalho artístico é um monumento lindo de realização criativa.  Gosta-se nele da vocação que investiga um valor a desbordar fron­teiras pátrias para se tornar universal ao romper o iso­lamento que cada pala se impõe e o restringe.  Soares sou­be guiar as suas primeiras tentativas plásticas em direc­ção a uma coerência sem a qual não seria válido o teste­munho da visão do mundo, que tão original. mente cria. vai, conversando com os espectadores, disfarçando as suas obras de um Carnaval de recordações.  Participa com os ou­tros, a partir da galeria de personagens, tornando numa festa o ambiente variado das histórias inventadas.  Come­mora o prazer estético com procedimentos modernos, possuindo um vocabulário expressivo, directo e eficaz, próprio para transmitir aos seus semelhantes a própria sen­sibilidade, fruto que se revela transparente devido a uma mentalidade que encerra a linguagem da invenção fantásti­ca, tão importante no papel vital que a sua arte repre­senta, como pessoal como homem, como artífice, como cri­ador.

Luís Soares, esse mesmo prestigioso criador luso-moçambicano sobressai devido ao vigor da sua obra, onde a matéria pictórica e a técnica são os eixos da pintura, da cerâmica ou do bronze.  A sua experiência abarca um desejo constante de busca e de afã realizador nos campos cromáti­cos por meio dos quais discorre, em liberdade plena, ar­ticulando sensações, aplicando os materiais com mestria, obrigando as figuras a protagonizarem uma acção: aquela cujo traço criador nos inunda os sentidos – do desenho pintura, da pintura ao tecido, do óleo à tinta-da-china, do lápis à cerâmica, da escultura à serigrafia.  Esse marulho de composições plásticas capta o espectador, assim como o realiza e recria.

O seu trabalho no campo da arte, além de ser surpre­endente, é multidisciplinar.  Como indivíduo que possui o seu próprio universo de formas plásticas, no marco das suas múltiplas tendências criativas, como é possível não lhe reconhecer os méritos, ou não tomar em linha de con­ta o trabalho silencioso, o esforço que assenta em vértices tão significativos da vanguarda? Como não saber apreciar a honradez, o critério, a decantação que exis­tem no realismo mágico da sua pintura?  Como não observar e, ao mesmo tempo, concentrar a atenção, na sua rica per­sonalidade, que tanta força vital põe no resultado estético?

Mas, instintivamente, Soares dedica-se mais à pintu­ra. Nesta, e com esta, aprofunda os sonhos, tornando-os fecundos e maravilhosos.  Quem deseje aproveitar a miúdo aquilo que o rodeia, e sucede,  de maneira diferente do que costuma fazer, a partir da sua capacidade mental e individual, não deixará de o ir ver e de se quedar em atitu­de contemplativa à frente desses rostos carregados de si­gnificado – burla, máscara e ironia -, e achará em soa­res as suas figuras fantásticas e oníricas tão ligadas à origem moçambicana do criador.

Que lição de variedades para todos os gostos!  Como sobressaiam as ténues pinceladas de uma realidade multi­colorida!  Que moral artística tem o seu autor para repro­duzir esses fantasmas, fantasias e invenções!  Como recor­da a arte africana – que tão bem conhece – nas suas influencias e com as suas motivações diferentes!

Pintor, escultor, desenhador, cartazista, gravador, gráfico, ceramista, vidreiro, tudo isto constitui o percurso amplo da dedicação que permite ao fio do seu engenho estabelecer o nível de representação.  Dessas opções técnicas, tira ele o mais conveniente no momento em que a elege.  Com o seu trabalho em campos criativos diferentes, enrique­ceu as recentes tendências artísticas em plena fase de produção.

Diria eu que interpretar Luís não é coisa fácil. Precisa-se de um desbordamento para alcançar a sua ferti­lidade frutuosa, que é o atributo inflamado que lhe in­crementa o vigor plástico; exige-se uma entrega sensível à sua dimensão estética, que é esse selo pessoal mágico­-simbólico com que transmite os anseios mais íntimos trans­mutados pela luz resplandecente da sua alma chamejante.

Em torno do seu nome artístico congregam-se estes atributos múltiplos: serigrafista digno de apreço; de­senhador com interesse; ceramista com valor; escultor com relevância; grande pintor, porque sabe como deseja pintar e como o há-de fazer ou seja: artista completo e total, de grandes inventos e visões constantes, que é protago­nista por excelência da sua própria obra.

Renovando-se nos seus trabalhos, que, sendo tão pessoais, sem com isso deixarem, nem por um momento, de identificar cabalmente o seu labor cria­tivo, o filão heterogéneo de exercícios e testemunhos que lhe permitem extrair a seiva às suas obras de arte.  Como artista peculiar, como artista polifacetado, que vai à guerra por alvitre próprio, ocupa um lugar de destaque na arte internacional contemporânea, estando consciente – na minha opinião – dos valores estéticos de que é dotado.

A sua alma de pintor, o seu orgulho de escultor e a sua dignidade de ceramista conferem-lhe um altíssimo nível artístico.

Cada parte que cultiva está muito de acordo com a sua criação artística bela e desenvolvida, tendo o privi­légio de possuir uma capacidade de expressão fora do nor­mal Como instrumento de modernidade temática que a adorna,  também o seu bastião estético o faz sobressair, o destaca como artista vigoroso, como criador dos seus códigos como re-criador em saturação.  Porque méritos não lhe faltam – na sua assinatura cristaliza-se um dos me­lhores ganhos e uma das contribuições fundamentais da pintura portuguesa de hoje.

É claro que o moçambicano parte de um primitivismo natal para passar a outros esquemas estéticos de maior anterioridade, entre real e ideal.  A selva mágica, tran­sitando para formas, figuras, rostos: comunicação e pre­sença materializados pelo pensamento em fórmulas surrea­listas.  Se a circunstância genética o fez ser artista, esse suporte transformado em criador multirracial, ilus­trado no seu percurso pelas culturas diferentes que o atingem.  Com essa linguagem expressiva a retratá-lo, a continuidade da obra transforma-o imperativamente num modelo de polimorfismo que assim permanecerá a partir do mosaico das suas contribuições plástico-artístico-estéticas.

O nome relevante do pintor e escultor Luís Soares abriu-se, pujante, às novas perspectivas pictóricas, como puro testemunho desta época que se dá ao luxo de “o ter” consigo, como solitário solidário que conhece

e expõe com grande emoção, e com um ministério peculiar para nossa satisfação interior, visto viver em cada um de nós a partir da lição de arte que recebemos dos seus quadros.

A vida apresenta-se-lhe como uma representação.  Vida essa que dá frutos sugestivos e que o artista colhe por meio da ordem inspirada.  Luís espreita o acontecimento fundamental, e deste extrai todo o género de conclusões, merecendo essa criatividade ser considerada como lição de vitalidade pictórica.

Artista em evolução, Luís irrompe em mil formas, cada uma em seu lugar, numa ordenação meticulosa.  São os marcos do seu estilo, já que a vida anímica lhe irradia dos diversos impulsos do pincel.  Nas composições de Soares há um diálogo do eu com a cultura universal que explica cada obra em particular. É tão intenso e subtil quando evidencia a categoria da sua obra pictórica, como quando “agarra” o relevo da matéria nas suas esculturas.  Luís tem nas veias a riqueza vivencial, que vai entesou­rando, em uníssono com a ambição do verdadeiro criador.

Admiro a virtude que consiste na capacidade de fazer aquilo para que cada um está talhado, e ele reúne o pra­zer e o dever num ajustamento de gostos estéticos e por­menores técnicos.  No princípio da sua maturidade, há uma intuição que o assombra medida que esta se desdobra.  E há também aquela suprema tensão que Soares tão bem aproveita!

A vasta carreira de Luís Soares tem passado por eta­pas várias e distintas, mas, sobretudo, tem sido balizada por elogios da crítica, está sublimada pela qualidade do seu trabalho pictórico.  Rebelde e simbolista, por um lado, por outro, reflectindo desatinados desassossegos e misteriosas figurações, é uma carreira feita com vigor expressivo e que preenche os espaços ambientais numa har­monia perfeita de planos que nos vão sempre transmitindo sensações inconformistas por meio da linha febril do dramatismo.

O pintor luso-moçambicano que descrevemos tem uma paixão cheia de êxtase, de “veia”, pela busca de temas – como um alento que o nutrisse – que engendra de uma maneira con­tínua, isolada do próprio labor.  E fá-lo rompendo com modelos, sem esquecer, porém a coerência e a substância do que se reflecte nas obras, o que nos deixa entrever aquela aura sacramental que o envolve, o mistério que lhe está na massa do sangue.

Para conceber, dispor e melhorar a urdidura temática, tudo é feito em conjunto com a efusão criativa e o alarde engenhoso.

A labuta deste pintor – bem como os melhores! -,exer­cida com assiduidade, abrange acertos amplamente reconhe­cidos.  Os apoios temáticos mais característicos e signifi­cativos da sua obra são a claridade expressiva das figu­ras junto às naturezas mortas, a intensa respiração da cor, a nudez existencial da pessoa na tela, a emoção trans­cendente da interioridade da personagem partilhada com o contorno geográfico, com a atitude de independência que nos prende.

Procura sem regateios (a partir de uma perspectiva própria), coordena a expressão essencial (porque se algo define os seus atributos como ser individual é esta), pe­leja animicamente com a única arma que conhece e domina a paleta.  Cultiva-se na auto-independência.  Volta a pintar derramando o seu deleite na expressão e na forma, porque sabe que a pintura está dentro de si, que é um ac­to total de integrarão, de entrega e criação, parte con­substancial que o funde com um ritmo superior – e o cin­ge a este, que exalta o contexto por aquilo que faz perceber, por aquilo que o seu impulso criador, feito de experiência humana, entrega, manifesta coerentemente na sin­gular concentração de cada quadro.

Surrealismo gestual que simboliza a plástica maravilhosa dos seres inventados; caras fantasmagóricas; cur­vas e linhas invulgares; olhares que se cruzam; imagens multicoloridas; pares deformados; caras na sombra; cabeças traçadas com liberdade; animais inverosímeis; monstros irreais; marionetas alucinantes; adolescências nostálgi­cas; encontros irracionais mutações do normal para o fantástico; olhares postos no infinito; descobertas pue­ris; expressionismos pintados com riscos; séries unidas pelo conjunto individual do grupo; signos sem explicação lógica; heterodoxias mímicas; figuras a contrapelo da vi­da; famílias marginais; destroços e choques galácticos; sexos curiosos; prostitutas sem beijos; mulheres senta­das; mitos e tentativas oníricas; abusos dos direitos humanos; fantoches nos seus cordéis; contemplações lunares; flautas emudecidos; peixes coloridos; répteis em cativeiro; azulejos atraentes; sonhos que nos deixam perplexos; visões cubistas; composições aparentemente demenciais; pinturas acrílicas com grande força demonstrativa; cerâmicas representando objectos e sujeitos extravagantes; harmonias entre o tema estranho e a cor, no acto de cri­ar. Tudo isto impera na riqueza de formas simbólicas ali­nhavadas por Luís Soares nos seus quadros mais represen­tativos.

Andar na peugada ”soaresiana” equivale a personali­zar a arte africana.  Preferências e descobertas suas que o levam a hierarquizar a própria obra por meio dessas re­ferências obrigatórias que acha fascinantes. Máscaras com pátinas muito sensuais e elegantes na feitura da cerâmica. Tótens que parecem agredir sem o menor pudor.  Objectos que rivalizam ao nível técnico e na capacidade inventiva das formas.  Quadros com uma expressividade fantástica, que fazem supor um divertimento revulsivo em quem os contempla.

O seu denodo artístico fica demonstrado em cada uma das obras que executa, continuamente livre nas concepções artísticas, mas sempre decidido a vir a ser um grande nome no seu campo. Obra caudalosa a sua, lúcida e per­feitamente bela, que ao se afirmar, afirma, antes de mais nada, um fundo insubornável de rebeldia e inconformismo – ­característica muito sua.  O que não quer dizer, de modo algum que Soares exerça um protagonismo inconveniente, nem sonhe em falso com a sua arte, mas sim que esta lhe serve de refúgio, assim como lhe permite ver qual a sua responsabilidade individual.

Quero deixar aqui o testemunho cabal de que é agradável ser-se beneficiário desta obra tão humana quanto animalista, em que a intenção do criador luso-moçambicano inter­roga o seu mundo íntimo, para no-lo dar a conhecer num depoimento que diz: é esta a minha arte.  Amem-na! É a manifestação da minha alma.  Nela se revela a reafirmarão da minha personalidade.

 

EXAME TEÓRICO DE SOARES

Ser crítico não é ofício necessário se nos puser­mos a pensar no de apresentador, ou de entertainer, -por exemplo –  mas sempre serve para orientar, e convém que haja um indivíduo a fazer de introdutor, espectador, marco e testemunha daquilo que se interpreta.  Sobretudo para demonstrar a classe e avalizar a categoria, quando for caso disso.  Certo é que criticar se torna numa missão bas­tante vã pelos escassos resultados positivos que se cos­tumam mostrar, mas que isto não a impeça de ser praticada como um mal necessário, de andar para a frente, tal como o prefaciador de um livro abre caminho ao leitor guiando­-o para as páginas que depois se seguirão.

Por este motivo faço o meu testemunho crítico de que Luís Soares é um dos grandes, dos “in-melhoráveis”, dos originais, dos mais firmes esteios plásticos lusitanos que se abrem em Portugal aos quatro pontos cardiais da universalidade.

Semelhante à consideração que tinha – e ainda tem ­Don Julio Caro Baroja pelo seu mestre Telesforo de Aran­zadi, confesso publicamente que também eu a tenho por Luís Soares (embora não queira ser turiferário que o per­fume com incensos gratuitos. Como pintor, como artista, como homem de bem, como amigo, muito o aprecio e apre­ciarei enquanto ambos vivermos.  Por tais motivos, esten­do-lhe o meu certificado de bom comportamento plástico para que dele faça o que achar melhor.

Luís é o transmissor de um trabalho manual apaixo­nado, mas ordenado por alguém que não pára de aprender e de ensinar.  Tanto na pintura como na escultura.  O seu caso é o de quem não copia, mas que interpreta; que não imita, mas que inventa.  Exerce um ofício que o atrai mui­to. É uma recriação surrealista fluida e construtiva, Uma obra que não só revalida o velho ditado de que já se nas­ce artista, como lhe acrescenta que, a partir daí, se for­ma o artista de hoje e de amanhã.

É dotado de um espírito artístico onde a prática ha­bitual é o desenho e a pintura. Com uma inclinação preco­ce para o desenho criativo, através de um dinamismo e de uma busca indiscutíveis.  Não se lhe pode negar esponta­neidade.  Está predisposto, antes de mais nada, a essas vivências, por instinto e sem esforço, por paixão e por habilidade.  As suas “sete quintas” são a pintura.  As suas “sete quintas” são a arte.  Esculpir, pintar, modelar, de­senhar, conformar, inventar, criar.  Uma obsessão pelo espírito receptivo do seu trabalho.  Faz o que lhe sai, mas pode perfeitamente fazer o que quiser.  Procura, sempre.  Consegue achados casuais, mas já pensando, antecipadamente, que os vai conseguir.  Uma força irreprimível o arrasta para a arte. E é um trabalhador infatigável, para além de tudo isto.

Um caso digno de menção e bastante complexo para se fazer dele uma leitura superficial.  Uma proposta na linha de Picasso, porém flexível a experiências e descobertas com cunho próprios.

A tarefa “soaresiana” surge apaixonada e cheia de afãs expansivos.  Com ela introduz grandeza no empenho.

Soares é um trabalhador denodado, persistente – em­bora a lufadas – cujo problema estético – é a sua missão – para alcançar méritos artísticos, é a exigência da cria­ção (técnica, cor, forma, poesia, que se reúnem nela harmoniosamente),  porque a sua questão primordial é ir cap­tando a mensagem, e pintando-a bem, reflecti-la da melhor maneira ao seu alcance.  Com a sua consciência de criador e respeito pela responsabilidade, no sentido idealista da prática da pintura, apresenta-se-nos nuns rasgos claros e definidores atrás dos quais há luz (a que o alumia), bom gosto (o que o define), há também virtuosismo (a sumaren­ta polpa intensiva que o caracteriza), originalidade (que lhe dá o sentido do belo como seu traço mais essencial) e brio na luta (consequência directa dos seus valores plás­ticos que nos abriram os olhos para uma realidade maravi­lhosa, existente na pintura que executa).

Tem uma paleta que harmoniza energia e mestria, mas que também faz gala de concretizar na tela, intuitivamente, o mundo fantástico como um mistério que nos seduz.

Luís Soares é um artesão da sua obra, daquilo a que se chama pintura, do que se deve conceptuar como uma pin­tura original e grandiosa.  E tal como se vê e comprova, a disciplina da tela não o abandona.  Como tal – pintor de raiz -, tem feito algo de formoso, belo,  útil, tem querido ser pintor para toda a gente com sensibilidade, como se fosse uma tarefa que sirva para construir um mundo grande, justo e luminoso.  Soares é um dos pintores jovens-maduros mais radiantes, que absorvem a imensa lição da alma huma­na e das novas formas de poesia, fulgurarão e esperança.  Essa sua pintura é um suculento prato de beleza, ou um trago demasiado doce para não se saber apreciá-la como matéria de melancolia e devaneio.  Porque sabe, porque co­nhece a fundo, que a sua pintura – em toda a que existe ­se insere completamente no âmbito lendário da pátria dos seus sonhas.

A pintura “soaresiana”, renovada e renovadora mere­ce comentários elogiosos como os meus que lhe estou a dedicar convicto e confesso perante a sua nobre arte, qual desejo expressar o meu cabal parecer afirmativo, nes­te caso de aplauso a um fausto de cor e semi-figuração co­mo nela se pode ver e observar, como nela se deve admirar e contemplar.

Eu classificaria a de Luís Soares como pintura de acção.  Porque, desde o início, esta procura ter no quadro um ritmo infrequente, estabelecendo um sistema de corres­pondência onde experimenta a parte física do trabalho, ao mesmo tempo que a processo de invenção espontânea, tão em voga nos pintores criativos dos quais é expoente.  Da­queles pintores que procuram fugir dos ênfases retóricos e dos excessos literários, e que não se importam de procurar, com decisão, o tipo de pintura em que apostam.

Luís Soares é uma das figuras mais singulares e polifacetadas da sua geração na arte luso-moçambicana, e uma das suas personagens mais significativas.  Ambicionando captar imagens de ficção popular, mais do que ser cronista da actualidade cria um universo pictórico de artista respon­sável, que vai desde o desenho, notavelmente bem executa­do, até à técnica da serigrafia, no exercício contínuo e perseverante de um ofício tão inquietante, mágico, genial e irreproduzível.

Ao longo dos anos, fomos conhecendo gradualmente os frutos dos seus avanços, em conjunto com as ânsias de ex­pressão, que nos indicam o pulso e a temperatura da ima­ginação que reproduz, com um estilo inimitável, e que nos faz pensar nas pistas que o terão levado a um trabalho inteiro.  A sua obra é uma delícia.  Representa uma janela ande nos apetece encostar para ver desfilar seres tão unitários, na sua diversidade, como idênticos a si próprios.  Aí está: desenhado, gravado, pintado, posto em tensão psicológica, envolto num estranho mistério de formas picas­sianas, linhas, contornos, rasgos e traços difíceis de classificar, sobretudo pela sua liberdade de expressão.

 

ÉPOCAS, REFERÊNCIAS E PERÍODOS

Para se compreender melhor a sua trajectória, enten­dida por um prisma evolutivo, de avanço ou progresso, po­deríamos separar e determinar por épocas os seguintes pe­ríodos das suas obras:

 

Período de formação e iniciação de carreira (1967 a 1974)

A esta época pertence a obra compreendida entre os anos indicados, sendo os três especialmente formativos, enquanto que nos dois últimos consegue um despreendimento mais inovador.

É um período de tenteio, de influência primitiva, em que podemos observar o emprego do pastel sobre papel, sobretudo, ou da tinta-da-china também sobre papel, pelo menos em algumas das suas manifestações.  Há uma decomposição cubista que vai desde a cabeça ao último suspiro. Tentativa de descobrir, de assimilar material e de se apropriar de­le para as suas próprias contribuições, ainda que as com­posições se ressintam da criação incipiente.  Mas fica ne­la um afã de busca, que achamos fascinante na sua arte.

Então decide-se a empregar a técnica mista, pelo me­nos sobre papel.  Isto pressupõe uma evidência por parte do artista: investigar é avançar, e avançar-se tanto por meio da abertura a novos temas quanto pela manipulação de outros materiais diferentes dos habituais.

 

Período de figuração expressionista (l975-l980)

Começa a focar-se num dos temas que mais o apaixonam.

Aparecem as figuras desfiguradas, desfiguradas porém, por surgirem com expressões retorcidas.  Figuras sentadas, som­bras, cenas arrepiantes, homens grotescos, grupos impressionantes, esboços duros na altura em que se capta o pro­tagonista.  Intercalam-se óleo, aguarela, pastel, colagem em plástico, grafite, técnica mista, que continuam a ter apetência por bátegas de cores musculosas, onde aparece a figura do protagonista em tons fortes e impetuosos – o monstro e o demónio.

Em 1977 as suas criações são mais surrealisto-fantas­magóricas.  No ano seguinte dinamiza as composições e in­troduz-lhes mais gente, que, à luz da plástica, alucina nos sonhos colectivos.

O ano de 1979 é o seu ano de eros. O artista situa-se no tema e fica obcecado por ele: a honra pessoal é perturbada pela pedra filosofal que se lhe converte em forma das formas que nos maravilham.

 

Período de formas abstracizantes (l98l-l983)

No itinerário pelas ciências ocultas, que as formas plásticas tornam às vezes visíveis, inclusive em guache, este autor fantástico e misterioso conduz-nos pelos labi­rintos da pré-abstracção no oráculo do paganismo.  Protago­nismo individual que merece o esbanjamento perante as ima­gens histriónicas que o artista sabe interpretar elegantemente, como onirismos brotados do eu criador.

São como viagens astrais, ou evasões da alma, ex­traídas por meio de significados simbólicos dos escaninhos mais profundos da mente.  Por isso interpreta tais mensa­gens como a vontade expressa dos deuses que as ditam.  O sonho indica como deve a mente proceder para se submeter aos exorcismos das artes “augúricas”.  Visões de possesso que abrem as portas das faculdades alucinatórias do espírito que Spies 1 transmitisse a Marx Ernest, supondo uma profunda mudança na sua obra criadora.

 

Período simbolista (l984-1985)

Ano pródigo o primeiro desta tendência.  Embora haja

(N.T.) August Spies foi um dos anarquistas ligados aos acontecimentos laborais de Chicago, que se tinham inicia­do em Fevereiro de 1886 e culminaram a 3 de Maio, quando um grande número de desempregados tentou entrar nas ins­talações da McCormick Keaper Works, na mesma cidade, de­pois da greve “furada” por trabalhadores não sindicaliza­dos.  Para abreviar, Spies, juntamente com mais três anar­quistas, foi enforcado em 11 de Novembro de 1887.

 

nele misturas, a capacidade de sonhar multiplica a harmo­nia. O sentido metafórico na criação artística tem os seus motivos, principalmente na vivência pessoal que o funda­menta.

Há muito para admoestar nesta tendência, ou estilo, que parece transmitir à obra uma certa extravagância, mas que, no fundo, o artista escolheu conscientemente para revelar a visão lúcida sobre o mundo do eu.

Um vazio imenso com que se defronta no quadro, quan­do começar a pintar.  Dúvidas sobre si mesmo, em face dos ou­tros.  Então invoca a beleza, ameniza-a e oferece-a, para dar forma àquilo que tem no íntimo.  Esse pequeno traço do eu, é o que o vincula a uma identidade exterior.  Os sentimentos do artista provocam incríveis efeitos oníri­co-simbólicos por estarem expressos com toda a sua insólita quota de criatividade.

A obra resultante extrai novos símbolos dos mitos velhos da pintura (que vai de Picasso a Miró).

 

Período do esquematismo (l986-1987)

Aqui, a actividade criadora mantém-se em tensão.

A forma estética da paleta transmuta-se em caligrafia.

Todo o seu valor se radica na simplificação nova da cor e do pormenor.

Vislumbra-se uma etapa de esplendor, que o marcará definitivamente através do riscado.

 

Período investigativo (1987-1988)

Investigação necessária para aprofundar a plenitude identificadora a que chegou.

Confirmação das formas inventadas, técnica, cor e figuração ideada, reunem-se num estado avançando do artista que se encontrou a si mesmo.

Emprego do acrílico sobre o papel, o que sublima o procedimento.

 

Período informal (l989)

A criatividade pictórica vai agora alcançá-lo numa temporada de informalismo declarado.

Há continuidade dos exercícios anteriores, podendo, por isso, incluir-se neste período vários dos que já fez, mas que agora condimenta e amadurece.

Mais que de evolução, pode falar-se de mudança, não isenta de continuidade.

 

Período orgânico (l990)

Assustam as suas horripilantes imagens, que combinam o erótico e o fantasmagórico.

Permanência das linhas de composição.

Reminiscências dos diversos graus que constituíram interesses anteriores.

 

Período ideático (1991 em diante)

Trabalha com acrílicos sobre papel e tela.

Vibração mais polposa da cor.

 

10º Período das cabeças (escultura) (de 1974 até hoje)

Abrange, praticamente todo o processo escultórico.

Em geral, os moldes para as esculturas são feitos em esferovite.

Impressionam as frontes, o seu garbo expressionista, a sua força desatada (que é, ao fim e ao cabo, a tónica geral da escultura de Soares, tão própria, tão sua e, ao mesmo tempos tão perturbante).

Período que abala, realmente.

 

11º Período tecnicista (cerâmicas) (de 1980 em diante, até aos anos ‘90)

Demonstração de domínio do material, conhecimento da técnica, bom gosto, variedade de motivos, execução origi­nal, ofício relevante, dedicação exemplar, método singu­lar de classicidade e vanguardismo desta arte.

 

12º Período neo-trajectória/pós-trajectória (desde os anos ‘90)

Desde o novo ao neo e ao pós, Soares vai avançando, embora fazendo acertos constantes.  As raízes mantêm-se in­tactas, mas amadurecem.  O artista ensaia e adapta a sua arte às exigências dessa progressão.

 

REPERTÓRIOS, ITINERÁRIOS E TENDÊNCIAS

(pintura, escultura, cerâmica e desenho)

Nele, o exercício escultórico significa a ocasião oportuna da relaxação, da liberdade criadora.  Nada de ob­jectos inventados, apenas cabeças sóbrias, potenciando a harmonia, ou dando sentido de equilíbrio a este mundo real subvertido pela poluição, ruído e fadiga, contra o qual se pronuncia, numa denúncia, para destacar os efeitos po­sitivos dessa actividade.

Com ela recria sensações mais do que outra coisa ­por exemplo, mais do que motivações intelectuais.  As intencionalidades materiais impeliram a experiência humana, como ideia expressiva, nos efeitos dados à escultura por este seu interessante obreiro.

O conhecimento escultórico de Luís traduz-se no lado mais positivo do seu valoroso entendimento.  Unindo à vontade a avidez criativa, leva pessoalmente a cabo as suas faculdades de tipo sensitivo, até aos menores detalhes.

Ocupar-se da escultura de Soares comporta inquiri-la como forma de expressão enigmática, envolvê-la com uma in­terrogação na sua carreira de criador.  Não se pode igno­rar aquilo que com ela nos oferece.  Por muito difícil que o processo pareça, o comentário crítico deve ser necessariamente cauteloso.  Se interpretar algo é compreendê-lo, há que ser perspicaz para ver nela – na escultura – a abstracção, a figuração simbólica e a fantástica, a con­ceptual, a construtivista, a realista, etc., ou para apre­ciar melhor – sem paixão julgadora – o saber das técnicas desta figura cimeira da jovem plástica contemporânea cons­ciente do sentido universal da arte.

Tal como os materiais que emprega, a obra escultórica de Soares é dura, nobre, difícil, complicada, inova­dora, vigorosa.  O artista busca, explora, na missão de se expressar em relação aos outros, por meio da sua lin­guagem pessoal de formas inusitadas.  O escultor mergulha na ocupação de um mundo que é seu, e  que quer tornar nosso. Nessa pedra angular se acha a dinâmica criadora que rompe com os componentes tradicionais.  Uma obra assim de­monstra por si só, sem necessidade de enfeites, repelin­do até as rudezas, a contundência de um esforço para che­gar à ideia criadora, através de uma mensagem comunican­te de objectos e estruturas.

Ao trabalho escultórico desenvolve-o como um tema re­freado.  Poderia dizer-se que este adquire nas suas mãos uma carga de sugestão, tão rica à carícia táctil como es­timulante da mecânica da composição, ou novel e até exótica,  na técnica do volume aplicada à raiz da figuração inédita da escultura.

Com a sua contribuição constante e progressiva para a vanguarda e o anti-academicismo, na sua escultura apre­cia-se um equilíbrio harmónico de volumes e vãos,  de ma­térias e espaços, que, com a expressão das formas, congrega uma catalogação – nada fácil – das suas obras vigoro­sas, compactas nas superfícies, que extraem a expressão à matéria, ao mesmo tempo que constituem um repto, ou um desafio, próximo da expressividade gestual.

A esmerada execução das cerâmicas reflecte amplamen­te a sua técnica pessoalíssima e surpreendente, com um toque intuitivo de vanguardismo do qual não arreda os valo­res básicos da feitura clássica, respeitando sempre o ní­vel de procedimento onde a forma surge intensamente desenvolvida.

Nas suas mãos o azulejo tem o crédito profissional requerido numa lide tão técnica quanto artística, porém com resultados estéticos brilhantes – na cor, no esbanja­mento imagético, na composição sobreposta – num ente tão produtivo e tão exercitado.

Na sua carreira de ilustrador (e nesta está implíci­ta a serigrafia, exercida com tanto cuidado) surgem composições em que se acha o prazer da contemplação silenciosa e onde se capta uma visão inédita.

As serigrafias dizem muito a favor do artista.  Obtêm-se com um desenho preciso, bem executado, de belo traço, aplicado ao papel com uma eficácia exemplar.  Chama-se a atenção para a destreza esplêndida da arte gráfica deste pintor luso-moçambicano/universal como atractivo, ou como centro de atracção.

Não menos sugestivos são os seus desenhos.  Fá-los à laia de traços de figuras que se ligam à pluralidade interpretativa do corpo criativo.  Até certo ponto, são conjuntos de linhas onde as cabeças humanas configuram imagens inquietas e nervosas, ou elementos que servem de alicerces ao poder de comunicação da sua própria obra de arte.

Com a criação, Soares ergue um edifício que se enten­de melhor por meio do desenho – aliás, excepcional – e pe­lo qual sente uma grande inclinação, um pendor, cio­samente guardado.  As linhas apoderam-se das formas como arabescos ao serviço da resposta emocional, espontânea, íntima e afectiva.  Constituem um exemplo de habilidade, de força, que impele o quadro, de ligeireza imponderável – são lições a lápis.  Além de apontamentos, notas de es­tilo, passeios gráficos entre o trabalho e a meditação (que é onde se esconde o processo complexo da execução do quadro).

A perícia é uma das notas dominantes na sua criação desenhística.  Trata-se de metáforas multicoloridas dignas de todos os elogios. É só questão de perceber que o acom­panha o anjo flutívago que preside ao Desenho.

Como um exercício de recobro, descongestão e repouso da tensão provocado pelas disciplinas mais vigorosas, co­mo laboratório das mesmas, ele considera o papel o suporte básico, mas dotado de um ênfase especial: as soluções for­mais do desenho e da linha são propostas do executante es­tético que representa nele – o desenho – e com ela – a linha – homens e animais, numa vertente expressiva interessantíssima.

Luís exsuda, por todos os poros, uma grande sensibili­dade, e tem uma inclinação irreversível pela arte, desta­cando-se isso na grande facilidade com que faz desenho, esse desenho pelo qual tem um gosto especial.  Possui um temperamento que aprende com uns e outros, vê muito para aprender, mas, sobretudo, aprende consigo mesmo.  Com a sua nova criação artística faz a escalada para o êxito.

Está claro que segundo o meu ponto de vista, e como causa de novos achados expressivos, é um artista de pinturas, esculturas e cerâmicas com projecção internacional.

 

A OBRA EM MARCHA

É cuidadoso nas técnicas e fiel aos materiais que domina desde que se iniciou na arte – quer seja tela, papel, barro, bronze ou madeira.  Tem sabido evoluir des­de as primeiras criações até às últimas obras, onde as linhas e os ritmos dão movimento às figuras desfiguradas. É um artista original, cujo traço mais caracterís­tico é a facilidade espantosa com que elabora a sua obra – obra essa indubitavelmente muito bela e liberta de tendências dominantes, executada como actividade plena, do­tada de lugar próprio, e independente da estética geral.

O pintor, empunhando o pincel, depois de prolongada elaboração, com um rigor responsável, aumenta o ângulo de visão onde, justo é reconhecê-lo, reside a sua maior virtude: a espontaneidade com que produz.

Toda a obra de Soares derrama imaginação e sensibi­lidade.  Não é sovina ao adaptar nenhum dos temas variados que maneja com o virtuosismo intenso do coloriste consu­mado, e apresenta-nos a composição cromática e luminosa, cujo desenho é desfigurado pela luz, sombra e cor.  O que confirma a ágil naturalidade deste pintor em tudo o que faz.

A casta do artista caracteriza-se pelo leque amplo da concepção temática onde a sua obra se refugia, acomodando-se à perfeição no que constitui uma das suas melho­res cartadas profissionais: a força de expressão sempre bem controlada como linguagem autoral.

O que se vai vendo nele é que prossegue com o seu trabalho, imaginativo e espontâneo como os que são, e, simultaneamente, carregado de emoção e beleza.  Alterna uma nova direcção com quadros característicos, de pince­ladas irregulares, de cores bem moduladas, mundos de tre­mor, idioma elementar, que revelam uma maneira peculiar de navegar na cena da arte contemporânea.

Há que observar a surpresa e a originalidade plásti­ca para a poder classificar de completamente diferente e pessoal, digna de um pintor que tem um marcado sentimento lúdico e de um homem que faz da arte a sua meta.

Este grande artista mantém sempre uma trajectória de uma coerência segura e de uma sensibilidade plena, de uma força e beleza divinas.  Desenha com uma paixão quase doentia.  Não pára de pintar, como recurso constante da sua natureza criativa.  Penso que, por estes pormenores, a sua obra pictórica tem uma expressão categórica.

Cada vez que o artista português se decide a aumentar a sua obra, melhora-a.  Oferece novos trabalhos depois de uma série de investigação em torno da sua teoria artís­tica. Obra que se fica pelas suas mais puras essências e pelos seus conteúdos, nunca alheios à improvisação: com esta impregna as suas peças de uma espécie de facilidade esotérica – parece-nos que lhes dá tudo aquilo que reque­rem para nos meter num invólucro e nos fazer participar na mensagem comunicativa que encerram.

Já que toda a obra boa perdura, a de Soares – como trabalho considerável – há-de perdurar para as gerações actuais e futuras.

 

UMA VISÃO INQUIETANTE DA ARTE CRIATIVA

Soares é um artista internacional que, com as suas pinturas e esculturas, nos introduz no primitivismo da cultura moçambicana.  Mas, ampliando esquemas, vai fazendo uma obra mais vasta, entre real e mágica.  O seu “terreno” é comunicar formas, formas que são presenças africanas e ibéricas, cora que compõe uma linguagem multirracial.  Um mosaico de rostos surrealistas aparece por baixo do su­porte informal do impacto das figuras que o artista for­nece, idealizando-as.

A criação pictórica de Soares capta certas manifestações desatinadas, que parecem imaginadas ou inventadas pelos sentidos.  Eu diria que não deixam de ser para si o produto básico de tanto e tanto quadro derramado profusamente pelo vasto mundo da criação, mas também que se pode manter como um trabalho seleccionado na arte de hoje.

Com alusões aos tipos rituais, com a sua fisionomia especial, com a sua agitação corpórea, no decurso da ex­pressão legítima, contribui com um tipo de produção que, pelos seus esforços, pelos seus méritos, além de provo­car grande perturbação na biologia sensual, devido à agi­lidade linear dos contornos, deu lugar a uma variedade coerente de produção artística ligada a uma esfera de grande dignidade.

Uma vontade férrea, associada à capacidade de trabalho, harmonizam a imagem dinâmica de Soares.  Perante os nossos olhos aparecem a  cadência harmónica das cores fortes, a eloquência chispante dos tons, a flexibilidade dos desenhos, o segredo que oculta os sonhos, o brilho das expressões que se estendem como serpentes derrubando Lacoonte, com uma tal qualidade que encarnam a matéria-prima de um pintor excepcional, com talento suficiente para atacar quadros admiráveis.

O seu trabalho criador é como uma alucinação esotérica, que apalpa o assombro com a máquina transparente da paleta.

Não é em vão que, com Luís Soares, se vai de surpresa em surpresa.

Não foge das representações figurativas: o que faz realmente é “desfigurar” a figura.  Porém, não como um pu­ro jogo, como um mero traço lúdico, mas sim com os tre­chos tremendistas de dinamismo com que nos presenteia a sua fertilidade cumulada e reconhecível: isto, porque a pintura de Luís Soares não nos ”desfigura” a nós.

Laboriosamente, com a ferocidade de quem depara com invenções na sua emoção pessoal, pulsa esse phatos arrebatado que é, por fim, o que o caracteriza melhor, sem esquecer o acento – apesar do seu grande ímpeto a compor – que descobre na pureza linear.

Soares deslumbra, comove, arrebata, satisfaz e alucina com as suas criações garridas, compondo um clima de beleza autêntica por meio do esbanjamento plástico.

Na altura de afirmar que Soares é um artista, um artista seguro e excelente, que há que analisar com cau­tela, um valor da arte que sugestiona nas suas ideias sen­síveis, baseio-me no seu conteúdo funcional-existencial que sobressai pela potência plástica da expressão, além de ser importante pela magnitude da força criadora e in­quietante, pela maneira de executar partindo da técnica criativa.

A mim parece-me que Soares possui uma ideia muito subtil da estrutura da peça artística. É uma visão única da expressão – por muito estranha que seja -, apta a atri­tar a mente popular. É a interpretação de um artista que luta para conseguir símbolos totémicos de relevantes ras­gos estéticos, ao mesmo tempo que tenta produzir obras de grande valor expressivo e artístico através de um mun­do que se define como pânico.

 

O ATRACTIVO MISTERIOSO

Dada a complexidade de tudo o que actualmente nos ro­deia no campo da arte, como se pode percatar uma pessoa de que a sua percepção seja extra-sensorial e esteja mercê da atitude técnica?  Tudo o que se pode ver nas obras de Soares, também se pode apalpar na matéria.  De tudo o que se pode apalpar na matéria, pode igualmente ter-se refe­rências nos sonhos.  Tudo isto aplicado a Soares, emprega­do a fundo no atraente mistério da sua arte, alucina-nos.

O artista submete-se ao tema como objecto da sua arte, mas a partir da mais desenfreada e apaixonada inter­pretação da pessoa alheia.  Alheia mas que é ele próprio, como argumento estético, como disciplina pictórica.

Há, nas suas mãos que pintam, a partir do cúmulo da imaginação posta ao serviço da surpresa, ou seja, a partir da sua imaginação cumulada, o ritmo interno que permite admirar uma pintura sem estridências, aberta ao mundo, com frutos, valores e emoções pintadas.

A aventura do estilo inquieta-o, mas concede-lhe uma certa dose de mistério, passando à deliciosa fantasia, partindo da alusão sagaz, e à sagaz ilusão partindo do significado tentador da sua plástica.

Transmitindo-nos o gozo estético da contemplação, que o pintor consegue tirando o partido máximo da qualidade de dos seus traços, unem-se numa única e irreproduzível realidade, o gesto, a técnica e a emotividade.

Luís Soares possui uma grande capacidade criadora.  Serve-se de um traço livre na linha; é ousado no volume e na cor, por isso é esteticamente atrevido nas suas com­posições.  Um bom trabalho do pintor, digno de aplauso, antes de mais nada pelo estilo ágil que emprega, que salpica de formas essenciais, para criar um microcosmos pictórico diferente, inquietante e cheio de mistério.

 

AS FANTASIAS ANIMADAS

Luís Soares é um pintor original, o que torna única a sua obra.  A concepção que tem da pintura apresenta-no­-la com uma imaginação impressionante, dando livre curso a tudo quanto ideia, o que é muito e do qual pode fazer alarde.  As figuras aparecem como fantasmagóricas e estão cogitadas e conseguidos – com a projectura estranha e intensa que nasce do seu grande talento pictórico.

A sua dedicação plena demonstra bem experiências e conhecimentos, assim como inspirações em matéria de so­nhos.  Novéis são os seus quadros.  Pelos seus matizes de cor e pela imaginação vivaz de quem os executou, temo-los perante nós para disfrute e estupefacção.  Pela sua energia ardente pertencem às novas contribuições onde se desco­bre o admirável da imaginação que os criou.

Tal como de uma catástrofe resultam destroços e mu­tilações, o andrajoso, o selvagem, o ruinoso, assim dos pincéis do pintor-criador português “o carácter pânico” d’orsiano provoca um calafrio revulsivo, juntamente com uma chispa de emoção cujos igneos resultados de primitivismo nos apanham de improviso, aos que somos seus espec­tadores.

Perante os ensinamentos da sua capacidade para fantasiar, e como exploração do equilibrista que é em cada um dos seus quadros, pode dizer-se que faz uma pintura por metáforas.  Por isso transmite uma mensagem alegórica.  Não é feita para uso corrente.  Não se rebaixa ao decrépi­to da arte, mas descobre, desenvolve, quadros significa­tivos, tão dignos do autor definitivo que os sabe dife­renciar de muitos dos outros artistas contemporâneos.

Quando um indivíduo se encontra com uma arte de facto surpreendente e bem estruturada, com identidade pictórica própria, executada sem barroquismos que, além dis­so, é imaginativa, intuitiva e pessoal, não pode fazer menos do que se sentir obrigado a classificá-la de valio­sa, em especial pela beleza que o perturbamos também pe­lo atractivo da sábia deformação dessa mesma arte.

Não é em vão que Luís Soares possui o dom da criatividade.

 

A ACTIVIDADE E EXPERIÊNCIA ESTÉTICA

Luís Soares pinta com cobiça.  Explicando melhor: não pára de perseguir a beleza moderna no seu repertório.

Estamos a falar de um dos pintores lusos mais bem enquadrados nas estéticas do seu trabalho – de onde trans­luz qualidade e busca -, que delineia a sua obra, a ela­bora, a imagina e se diverte com a múltipla labuta de de­senhador de histórias e ilustrador de rostos, converti­da em interesse artístico pessoal e determinante de visões e ideias.

A presença do artista no ambiente da arte é motivo suficiente para criar formas, linhas e volumes de beleza resplandecente.

Usa a tensão de um modo especial – tensão essa que é o manifesto mais plástico da anti-repressão -, o vigor estética, como protagonista; a harmonia, com a sua melhor vontade; a torrente de cores analisada através dos re­flexos.  Todos estes componentes surgidos como um domínio do desenho, sendo este de fino e potente traço.

Produção estranha e pessoal, como meio de comunicação de quem origina uma estética em conjunto com o destinatário para quem a encaminha,          abalando-o emocionalmente.

Pintura em remoinhos, produzindo efeitos demonstrativos do seu talento verdadeiramente criador.

Um mundo encantador como o de Soares está feito com os olhos da busca intensa.  O dinamismo das suas sequên­cias é impulsivo, vitalista, comunicativo, como o autor que o origina.  Unido à força vital, trata-se de um dado indicativo que se torna muitíssimo expressivo pela mão deste artista, profissional da destreza.

A desenfadada liberdade das suas pinceladas revela as notas características da sua personalidade artística.

Em claves de combate encarniçado com os inimigos quo­tidianos do artista – há que os superar para poder e sa­ber criar –  as suas obras revelam um ministério desbor­dado e um impulso criativo cheio de fé e vitalidade.

Qual trajectória, qual quê!  Se o artista olha para trás e vê o que está feito, além daquilo que é – extenso e variado -, só terá de se sentir feliz.  Magnífico traba­lho o seu, que serve perfeitamente os fins pretendidos pela boa arte, comprovativo de que Luís soares é um au­tor que não pode parar.  E que, entre os homens sapientes, tem grandes aspirações de continuar a obra espiritual do Sumo Autor.

 

A ARTE PICTÓRICA DA FIGURAÇÃO LIVRE

Com o seu estilo renovador, Luís traz uma lufada de ar fresco.  O que lhe permite configurar um universo de imagens que adquire uma dimensão particular na sua longa etapa de amadurecimento.  Etapa essa que reflecte uma trajectória onde importa mais o “como” e menos o “para que”, aproximando-se, por gosto, de uma figuração idealizada que, em certos casos, se roça mais pelo impulso espontâneo do gesto de Picasso, pintor que, indubitavelmente, desem­penha um papel decisivo e fundamental na obra do portu­guês.

Através dos elementos de um todo – a sua produção global – chegou a uma desvinculação figurativa que constituí o ponto limite da sua temática última.

Referimo-nos aos óleos, belíssimos óleos deste artista de temperamento independente embora de parentesco cromático e de veia informal picassiana.  Pese a quem pe­sar não se lhe pode negar autenticidade nem exigência técnica.

Pintura gestual, habitualmente mantida em tensão, em que o manual se liga ao mental e ao artístico para obter um peso específico na voragem pictórica de irrupção formalista ou experimental.

As suas projecturas, intuições e preocupações são capazes de conseguir harmonias subtis que acham os tons certos e servem mais para inquietações do que para delei­tes.

A pintura de Luís é um canto visual à elasticidade.

É a subtileza que a define.  Há nela harmonia na composição, vertigem no desenho, dissipação na cor, atmosfera sonhadora a envolvê-la, e, sobretudo, o desafio de descobrir uma mensagem que nos diverte, nos surpreende e inquieta.

Pintura de paixão absoluta, cuja contemplação é tão fascinante como tudo aquilo que, na verdade, vale a pena.

 

O SENTIDO CROMÁTICO E A LINGUAGEM DA COR

Vista do seu esplêndido conjunto, a beleza delicio­sa que Soares cultiva torna-se no leitmotiv das obras, tão absolutamente fantásticas como pertencentes a um gui­nhol de colorismos que lhe impregnam toda a trajectória de uma espécie de estado de graça.

Quadros e figuras de protagonistas que denotam a profundidade do seu autor como coloriste.  Um autor pictórico, certamente, que extrai a obra com a profusão, a flexibilidade e o grande vigor artístico que lhe vai no íntimo.  E uma paleta de gama cromática cuidadosa, onde se patenteia logo o temperamento de pintor.  Com a nobre­za no domínio da técnica composicional, com a diversida­de de tons na preparação da cor, com a conscienciosa pos­tura a nível da tela, e com a estatura de um desenhador.

São elas as chaves mágicas que sublinham uma capacidade para expressar esse seu universo pictórico, traçado com uma carga espacial, e esse mágico espaço, povoado de sím­bolos no seu estilo audaz.

 

A GRAÇA FORMAL: ÂNSIA PELA FORMA

O pintor constrói uma linguagem formal que, usada na obra, o ajuda a tornar peculiar a produção – tão dila­tada e intensa, pela sua exorbitância – e lhe avaliza o I labor e a dedicação.  Acção criativa a de Luís Soares que se encontra na fase de plena contribuição plástica, com a força expansiva das circunstâncias vitais, produto de uma vocação estética e de uma concepção dinâmica.

No âmbito formal, o pintor português bascula o seu aspecto de expressão humanística com uma carga muito poé­tica.  Na eterna luta para encontrar o equilíbrio entre conteúdo e liberdade criativa, não se sente manietado pe­la técnica. Livra-se desta, embora tenha que a aplicar às suas obras, porque lhe ocorre espontaneamente no momen­to da concepção.  Quando forja um tema já sabe exactamente que procedimento empregar para nunca se servir dele de uma forma gratuita, mas sim perfeitamente inserido no seu compromisso de artista que deseja que o mundo cercano se reflicta na sua obra.

A mobilidade e o ritmo deslumbram, graças às mil formas e maneiras que põem a descoberto ensinamentos de quem se quer superar a si mesmo por um lado, e, pelo outro, o proveito de uma realização esplêndida que nos atinge e capta o nosso interesse.

Essas linhas traçadas com um raio de luz divina, no meio da angústia ambientam, deixam um vestígio profundo ao fazer pulsar o nervo sensível de forma francamente impressionante.

O valor formal desta obra é enorme, e anda ao compasso dos diversos labirintos e inquietudes espirituais e artísticas.  Se a técnica pictórico-escultórica é de substância apaladada, o gosto, ou a temperatura, de quem a executa possui uma curiosidade insaciável que nos dei­xa fascinados.

 

SOARES VISIONÁRIO

Com o objectivo de dar forma ao seu código plástico dispõe de traças sem defeito e, juntamente com estes, de uma pureza de linhas que parecem sensações flutuantes, ritmos com vigor orgástico, que utiliza para conferir densidade vital, vibração, doçura e irradiação de luz vi­sualmente irisadora, com capacidade para encher capítulos de pintura órfica, pôr fascinação em cada imagem, mos­trar plenitude própria para o fluir natural de um artista que anda sempre a fugir à servidão figurativa.

O sonho, a visão, o desejo, a fantasia, o mistério, a magia, formam o caudal verdadeiramente infinito, em relação à realidade cambiante de onde os temas são extra­ídos.  Ou essa espécie de rastos é deixada para ser aproveitada, tanto para conseguir a maior tensão sensível, como para desbordar na descoberta de tudo quanto lhe oferece o grande enigma da realidade, até à sua consecução pessoal.

O fluxo espontâneo da arte de Luís Soares compõe alegorias visuais que são como jogos múltiplos forma e cor como identidade única da inspiração da sua alma.

Percebe-se, nas suas imagens, as inquietudes de uma visão surrealista que distorce as caras das figuras huma­nas, sem olvidar o equilíbrio da composição com que as remata.

É evidente o grande pintor que nele podemos obser­var.  Sobretudo quando se serve da audácia expressiva nos corpos das silhuetas espavoridas, de miradas mornas com olhos retorcidos, a cara, o ventre e a cabeça constituindo os centros activos gravitando em direcção à esculturta de formas com vida.

Ao nível altíssimo dos vitrais de Marc Chagal, executados em vivas cores vermelhas, azuis, amarelas e verdes, nota-se umas influências próximas do seu estilo.

Paixão e liberdade na produção, que nunca é reprodução do que se vê, mas sim mais um desafio inconformista que deriva da sua inventiva.

 

O TRANS-REALISMO DE LUÍS SOARES

O inquietante universo de Luís Soares gira entre a mitologia, a astrologia e a iconografia simbolista.  As formas que o modelam assemelham-se aos signos do Zodíaco, na sua intenção de ser efabulações que resumem a reflec­ção cromática ao nível da matéria, de modo semelhante ao do escritor decifrando os arcanos ao nível da página.

Embora os “trabalhos de Hércules” do artista em ge­ral possam ter um território circunstante onde se refugi­ar, este português leva a cabo um denso programa artís­tico, com o qual se sente muito identificado, procurando obstáculos que a tensão criativa da sua estética supere para chegar à meta.  Para isso multiplica constâncias e dedicações, urdindo as próprias fantasias da sua alma sensível.

A invenção da realidade é o capítulo mais importante do mundo da plástica “soaresiana”.

Os rebentos mais excelsos da imaginação, os filhos mais espontâneos da sensibilidade fazem-no ser delicado, gozar de finura interpretativa e, com um fascinante espírito fantasioso e gosto requintado, criar para além de  do o que se possa imaginar.

Entre os seus sinais de identidade achamos animais fantásticos, que parecem impulsionados por asas míticas de tótens, ou ídolos de qualquer tribo africana.

A faceta surrealista do artista proporciona-lhe soluções plásticas, a partir de uma mente quase alucinada, que é digno, ao menos, de receber a atenção necessária.

Luís Soares, em certa medida indescritível, pinta de dentes arreganhados, e, para obter um feliz parto desse objectivo de pintar aplica-o ao estado latente de vivências cuja presença é invisível e que o artista des­basta de um mundo interior.  O processo de jogo óptico e imaginação, fica perfeitamente integrado pelas mãos do artista.

 

A IMAGEM PSÍQUICA

Trabalha num puro estilo de dicção descarnada.  Pinta por encantamento, e, por isso, o que pinta está saturado de fascínio.  Tem factores, procedimentos, técnicas, re­cursos que utiliza nas suas composições emotivas.  Expri­me-se com força, vida, corpo e alma.  Cala fundo na fantasia mas uma fantasia de dimensão pessoal, absolutamen­te sua.  Percorre um longo trajecto obreiro, alimentado pe­la perseverança e, também, pelos refinamentos surrealistas, cujas consequências abrem grandes possibilidades por serem rasgos vivificantes da nova arte.

Perante os olhares atónitos do espectador, como numa revista, desfila o maravilhoso conjunto “soaresiano”, apresentado, era todo o seu colorido e esplendor, com a melhor intenção plástica, por uma das paletas mais brilhantes da actualidade, em Portugal e no estrangeiro.

Nessas composições de grande metragem, os dotes interpretativos do artista mencionado fazem com que as re­conheçamos como uma mensagem que, desenvolvendo a sua exe­cução nobre e original, possui motivos suficientes para ser transmitida.  E são como os meteoros que se dissolvem iluminando o seu século, com um talento que olha em fren­te, acompanhado por um estilo belo e incomparável, estra­nho e esotérico, além de dotado de sobejas facilidades pa­ra obter um contexto de alcance fluído.

Com a sua criação artística, Luís Soares totaliza um microcosmos de paixões e delírios, tendo a fantasia como território mais fascinante do que as leis físicas: as intensas alegorias morbosas que o obcecam, a tal pon­to que as compõe com o sentido simbólico de imagens fetichistas.

Atrai-o o estímulo da busca, de tal maneira que há momentos em que se torna companheiro do mistério para assim dar impulso à necessidade de executar.  A gestação das formas faz-se muito rapidamente, e estas darão pro­jecção sentimental à imaginação – característica essen­cial “soaresiana”.

Pela senda intrincada do fantástico – porque dali, inclusivamente, se pode descrever um fantasma, a realidade do supra-sensível – configura o gosto mais ousado na sua evolução criadora.

As novidades que particularizam todos os dias na execução deste espécime-plástico, confirmam-nos a ultima ratio (1) da sua iniciativa individual.  Da iniciativa de indivíduo

1 (N.T.) Em latim no original: o derradeiro objectivo, neste caso.

dinâmico, de inclinação irrefreável e de imagina­ção desenfreada, com que quer obter disfarces estranhos para acenar à paz espiritual de quem se assombra perante uma tal arremetida da sua prodigiosa tarefa, da sua alu­cinação temperamental.  As imagens, cheias de vida, falam por ele suficientemente bem.

Baseando-se em maneiras (poderíamos chamar-lhes, e não por desprezo) demasiado libertas, trabalha com o soberbo desbordamento da imaginação.  Para melhor o captar  há que prestar uma atenção admirativa aos excelentes tra­ços de uma obra fecunda e abundante.  E prestar também atenção a este pintor fantástico e fero, autêntico fenóme­no de copiosidade  (a qualidade de ser copioso, não de co­piar).

O instinto artístico de Soares proclama a profunda inquietação existencial de um ser rebelde num mundo alucinante.

Como verdadeiro artista, o pintor criou a sua personalidade indubitável, tão patente na intenção imagética que palpita nos seus quadros com tamanha força expressiva.

Elevar o espírito além da paixão de criar, pode ser a aspiração do plástico português.  Desde o momento em que usa, com engenhos personagem desprovida de nome que par­tejou no processo inventivo, algo lhe sucedeu na mente: descobriu outra realidade.  E descobrias na intimidade para a tornar válida para todos, ao menos para todos quan­tos queiram observar essas imagens que Soares revela no processo da sua obra – transformando o engenhoso em belo, o deformado em válido, o íntimo em fértil.  A labuta des­te artista é um mundo especial que se tem de esperar, desvendar e saborear até extrair da sua execução a máxima seiva.

Tanto as peças de pintura como de escultura acentuam razoes pessoais (vivenciais) no universo particular do artista.  Na verdade, um universo que encaixa perfeitamen­te no contexto das últimas vagas artísticas, propenso também a fazer aparecer signos e símbolos de modelos cri­ativos imaginários.  Além de estar a trabalhar com aspirações, as mesmas que, por esconderem segredos imagéticos atraem, sugerem e adquirem força de lição vivencial, de mistério fascinante.  Ou seja, de obras estranhas, conce­bidas graças ao fascínio da idealidade.

 

A POTÊNCIA DO SIGNO

Como criador de sonhos modela de maneira mui potente retalhos de subconsciente.  Com eles evoca a alucinada fan­tasia, às vezes; outras, o pesadelo angustiante; com fre­quência está nas suas telas a visão fantasmagórica; ob­servam-se também imagens que desassossegam e desconcertam quem as contempla.

Tão alheios ao uso habitual, esses exercícios entu­siasmados ficam reduzidos a signos de criação, encarnados em imagens com que o pintor se identifica.  O significado vivencial do autor, convertido livremente em arte a partir da sua sintaxe pictórica, queda-se aberto ao espectador para que faça uma interpretação visual do seu conteúdo.  Sujeitando-nos ao que interessa nos seus exercícios, cons­tituindo descobertas para sair do labirinto de maneira diferente, há neles uma capacidade metafórica do que se pensa, se encontra ou se expõe, para melhor o encenar.

A obra atinge uma notoriedade plástica que a avali­za. A pessoa ultrapassa anelos de realização.  A sua pin­tura é fantasiosa, procede de uma raiz esotérica que se traduz por imagens grotescas que nos incitam, excitam e submergem em tensas perplexidades.  As personagens modela­das estão presas pela loucura libertadora das mãos que as criaram. São escorços sinuosos, desgostosos, impulsionados para a vida por uma ânsia emocional.  O desejo do au­tor apoia uma produção surrealista, mantém um peregrinar pela arte negra, e representa unia íntima posse do signo criativo que coadjuva a inconformidade expressionista.

Esbarra com cabeças que angustiam, formas expansivas e, nas suas obras, é fundamental a ânsia de aventura que as concebe.  Surgem por uma questão de necessidade.  Emanam com um efeito plástico digno de agitar, mudar, transformar, repetir, reformar, actuar, encontrar e inventar, por magia e milagre da arte.

Mais do que comunicar com alguém, comunica alguma coisa. Mas comunica alguma coisa ao espectador, exigindo a presença deste para o levar além do mundo corpóreo, com certeza a lugares imateriais em que a metáfora tem muito a dizer, bastante a explicar à experiência imaginativa da contemplação, a amiúde de infelicidade imaginativa por parte do contemplador, já que o faz conceber o sentido das coisas.  Por isso – por vigorosa e atraente – esta obra se adequa aos espectadores mais exigentes.

O registo gestual, nas suas telas, adquire impulsos que desfiguram a realidade.  Ou seja, Soares cria, com as suas impressões digitais, uma ficção personalizada sobre fundos ilusionistas que deixam a sua marca de autor individualmente simbolizada.

Imagens incríveis que apenas têm de recorrer à holo­grafia, e não à arte minimal nem à conceptual, nem à pós­-minimal nem à neo-conceptual, para convencer e demonstrar que o seu autor é um dos grandes intérpretes e que está na cúspide da pintura universal contemporânea.

É crítico e extremista na sua técnica de signos, sím­bolos, problemas, rupturas, embustes, mesclas caóticas de personagens que se movem entre a farsa humana e animal sem pretender adular os sentidos.  Nestas alturas tem que se lhe agradecer ser invariavelmente fiel, graças a uma série de achados constantes que, por isso mesmo, são, além disso, fecundíssimos, e, quando novos, rupturistas.

Infundindo alento à coisa produzida, prende-nos nas redes da emoção.  Alimenta-se espiritualmente de impressões sensoriais para motivar a sua temática.  Assim, encontramo­-lo no seu próprio ambiente, consagrando fidelidade amo­rosa a uma vocação como a artística.  Nela permanece, so­brevive e se cultiva, plenamente dedicado às suas exigências e superações.  A partir daquela, mantém essa presença mágica completamente escultórica ou iconograficamente pictórica.

 

UM INFORMALISTA RESOLUTO

(O INFORMALISMO COMO CHAVE)

Com as maneiras e os glóbulos vermelhos do indivíduo animicamente inflamado pelo manancial límpido das inquie­tudes que eu admiro em Luís Soares, aí está a sua “alma­grafia”: uma alma envolta na sua própria grafia, uma alma modelada pelo artista no seu foco visual.

Na sua atitude estética há que destacar ter conferido importância relevante ao inconsciente, ao pueril, ao hedonista, ao primitivo, ao selvagem, ao inventado, ao mágico, ao humorista, ao comunicado com intensidade, assuntos por que se sente atraído e que demonstram a inquietude da sua pro­dução: o pintor que se auto-cria, essa chave misteriosa da criação íntima, que lhe chega a abrir sensações inconfessáveis perante o desconhecido, paixões sublimes que apenas o próprio artista controla, que o artista represen­ta.

Com um percurso emocionante pelos seus quadros, o conhecimento das suas ideias, encontros e representações evidencia um trabalho constante onde de um contexto estranho surge um fino humor, muitas vezes próximo do surrealismo ficcional e do efeito expressivo incluído em cada uma das obras com uma imaginação prodigiosa.

Um microcosmos construtivo germinal com potencial repercussão macrocósmica, porque o círculo do autor se ex­pande por gradações, pela via mágica dos estranhos objectotos-sujeitos concebidos, tão igualmente válidos como ob­jectos significativos e como sujeitos básicos.

O universo utópico de Soares contem fulgores, conver­gências, sugestões, transparências, ambientações e subti­lezas, constituindo um conjunto onde cabem as indicações do criar. Indicações essas alicerçadas num estilo pessoal e inconfundível, cuja harmonia plástica se destina ao seu enobrecimento pessoal.

Pintor sugestivo, além de informalmente moderno no que nos atrai – interessantíssimo e magnífico, fácil e carregado de simbolismo, na esfera de trabalho dos novos modos.

O pintor vai-se desenvolvendo com as suas características mais sobrepujantes, sendo nelas flexível, ágil, dinâmico e subjectivo.  Por isso não é de admirar que os seus arrojos formais sejam convertidos em gesto.

Ao pé de um conceito estético muito vincado, aprecia-se a inquietude de um nervosismo vital que a obra protagoniza.  Ambos lhe apõem o selo inconfundível de artista consagrado.  Com a sua passada pessoal vai forjando – e formando com técnica depurada – um conjunto artístico de efeitos admiráveis.  O momento actual de Soares é óptimo no desdobrar máximo da sua imaginação, imaginação essa que é uma maravilha de criação a nos surpreender com a força expressiva de um mundo próprio, de um mundo miste­rioso, e que navega solitariamente pelos temas inesgotáveis veis que a mente lhe oferece à sensibilidade de artista.  De um artista que, por não estar marcado pelos arquétipos estéticos hoje em moda, fica no exterior destes, ocupando, inclusivamente, um lugar privilegiado na arte, segundo a evidência mais íntima do conceito e da identidade do novo.

A vitalidade comunicativa de Luís assombra com a graça infinita das suas imagens, com a riqueza requinta­da das suas cores, com a sugestão delicadíssima dos seus informalismos, com os dotes interpretativos das suas vi­vências dignas de um pincel magistral.

Luís Soares é um dos pilares da renovação plástica de Portugal, um dos melhores espécimes do informalismo deste século. A sua pintura é a de alguém fora de série. De alguém com uma classe superior. Enquanto continua a sua caminhada para chegar a uma atmosfera própria, desenvolve uma actividade invejável, grande entusiasmo no trabalho, além de capacidade de execução.

UM PINTOR VISCERAL

Soares é uma pessoa em que sobressai o talento comunicativo e o carácter vigoroso, um peregrino nas sendas pelas quais se chega a novidades vitais.

É um devoto da criação, que acarinha um caminho estético com inquietudes contemporâneas.

É um pintor que pinta com denodo, nervoso e ágil nas linhas para dominar formas plásticas que lhe são próprias.

E é também o artista de corpo inteiro, que se destaca pela sua riqueza plástica, dotado do vigor mágico que a cor e o desenho conferem.

A execução criativa pressupõe um esforço em si, como é evidente.  Mas não se trata apenas disso, mas sim de es­tar enroupado por uma linguagem pessoal.  Um aspecto sin­gular que o artista produz é a sua imaginação, que acolhe uma perspectiva lúcida, inclusivamente participativa de uma mitologização sensível, emocionante e mágica.  Mas não se limita apenas a desenhar com donaire, porque, embora educado por meio da arte, se pode considerá-lo um pintor durante toda a vida.

Felizmente, o português está longe das modas e dedi­ca-se à pintura – a uma boa pintura, aliás -, o que teste­munha a favor da sua constância no ofício.  Como símbolo dessas formas aqui fica uma trilogia: sonho-realidade-pin­tura.  E o resultado final é uma pintura executada por im­pulsos, informal, surrealista, cujo onirismo surpreende, mas, seja como for, decididamente longe dos carris da faci­lidade.

Cada exposição de Soares  ao público se pode considera um autêntico acontecimento, por ser um artista capaz de expressar, com uma poesia sugestiva, a partir da pureza das suas obras incessantes, o belo, o bom e o muito que contêm.

Luís entrega-se com verdadeira paixão à tarefa de pintar para a qual está dotado de uma capacidade inigualável. Contribuindo com um forte simbolismo como forma de expressão das suas emoções. criatividade intensa a sua que o coloca num lugar muito destacado nas exposições que faz, e o leva muito além dos limites geográficos.

Soares disfruta de uma mentalidade de pintor, tão necessária quando se executa um trabalho tão difícil quanto atrevido, e para, entre ventos e marés, se sair airo­so da prova, com um saldo positivo.  O que será justo re­conhecer.

O impulso, e a inspiração levam-no a gerar por meio da pintura, e é das invenções pessoais que surge a sua diligente actividade de criador.

 

COMENTÁRIO PESSOAL SOBRE SOARES

Desde que soube da sua existência e o conheci a fun­do, subjugou-me o universo das formas plásticas de Soares – um mundo próprio, diferente e desacostumado, transmitin­do a quem se insere nele uma inquietude que é sempre de agradecer.  Além de ser um exemplo de coerência e de não sucumbir aos encontrões da moda, demonstra uma execução fácil mas exigente, digna mas também idealizada, que constituem caminhos convergentes na boa senda que se abre como futuro deste grande artista.  Satisfaz-me risonhamen­te poder comentá-lo com profusão, falar dele, porque a sua arte me impressiona, por conter o virtuosismo que ser­ve para despertar a imaginação adormecida dos espectado­res.  São peças que se assemelham a espelhos deformantes e perturbadores, não feitos simplesmente com vontade de agradarmos sim compostos com um afã de acordar interpelante e criar estados de ânimo, o que também é caso para se lhe estar muito grato.

A magia do solitário fala por si só, como eu escrevo acerca dele por motivos de admiração e amizade.

Sempre levando muito em conta a sua produção, inspi­ra-se na temática imaginativa e dispõe de uma qualidade suficientemente sólida para permanecer no panorama dinâmico, vertiginoso e movediço da pintura dos nossos dias.

Além de executar uma tarefa maratonista, mas cali­brada, no sentido de um ”faraonismo” criativo (como se tem julgado a minha) por estar “vivo e de boa saúde”, saliento a fluidez e o brio da mesma, porque as qualida­des descritíveis são garantia de sensibilidade, imaginação e fantasia, não falando já de um enorme valor plástico emotivo e testemunhal.

Fazer da arte um ofício quotidiano, transmitido dia a dia, em todas as esferas da produção estética, é a in­cumbência que o português se tem atribuído a si mesmo.  Quando se vêem os seus quadros, quando se volta a examinar os seus trabalhos, é possível estabelecer contacto com um dos melhores artistas do último quartel do século que decorre.  Está onde deve estar, projectando-se tanto numa obra plástica pessoal, que cultiva ao ritmo da sua própria criação, como nas suas múltiplas facetas, por meio de tantas chamadas de uma obra multíplice consegue urdir o testemunho, bem provido pelo conhecimento da aposta ex­perimental, entregando-se plenamente à plástica e salpi­cando-nos de arte, com a riqueza ilustrada das suas pe­ças.

Da mente fantástica de Soares brotam atitudes belas e harmoniosas emoções, captadas com rapidez, sortilégios esotéricos, deuses mitológicos, galáxias seres estranhos, de estilo fino, muito entusiastas, de grande têmpera e habilidade, coerentes com o assombro de quem as criou.

Ao fazer referência às muitas impressões que me pro­voca a arte de Soares, advirto que é penetrar nos seus meios, no profundo sulco aberto por este autor muito apli­cada.  Já me explico.  A sua arte causa-me uma impressão favorável porque não é casual nem obrigatória, porque está feita por pura convicção, porque a Soares lhe atrai o que faz, e porque não abdica da sua mensagem – por muito duro que seja o trabalho.

É o caso pessoal do artista que faz da pintura uma forma de vida.  Que tem habilidade técnica no sentido mais amplo da expressão.  Acolhe a beleza que ganha vigor na sua actividade criativa.  Por esses motivos e razões convincentes, é protagonista, na pintura portuguesa de hoje, em liberdade e com uma voz própria e imaginativa.

Trata-se de um artista realmente singular, que faz da arte um acto de lucidez quotidiana, com vivos propósitos de executar obras de maneira natural, faculdades que lhe servem para realizar o seu sonho ideal do trabalho artístico, como são, verbi gratia, a postura, o desejo e a vontade com que materializar rápida e simplesmente uma ideia concreta.  Assombro oportuno com o jogo vital deste centralizador da pintura portuguesa e universal.

A maior porte da sua produção, coadjuva uma faceta lúdica e está feita com materiais plásticos variados. O artista português despe a alma para sentir a grande atracção de criar.  O que tem, para si, um significado especial.  Para desenvolver a investigação escultórica, ou para agu­ardar o processo criativo e o transferir para a tela, carrega os sentidos de beleza, com certeza captada no caudaloso rio imagético da magia e do mistério universal. Julgo que com a sua energia vital atinge um conhecimento das mensagens secretas percebidas através da emoção, derivan­do dessas mensagens um fascínio hipnótico que prende o olhar do observador.  E também uma capacidade de assombro perante o grande enigma da cor e das formas, essa rela­ção de comúnia que o artista tem por tudo o que criou e que serve, na sua arte, de processo para libertar as for­mas.

Quem vibrar perante estas realidades visuais inéditas, encontrará facilmente resposta para a arte de Luís.  Uma arte submersa nas essências mais válidas da nova concep­ção da realidade, que rompe inclusivamente com a tradição, de épocas pré-contemporâneas.  Uma arte a que se entrega com paixão, entendendo-a como espectáculo estético, nas­cido da sua biologia pessoal.  Uma arte que vai levando a liberdade gestual a um grau profundo de quotas de captura, a que só podem aceder os criadores artísticos privilegia­dos.  Como Soares, um artista com projecção internacio­nal que concebe e apresenta pinturas e esculturas.

Luís Soares pertence ao grupo superior dos pintores vivos que se salvam das épocas com uma identidade estética: a raiz profunda da sua própria pintura.

Um nome que se recordará – o de Luís Soares.

Uma vida artisticamente cheia.

Um homem que pinta tal qual vive.

Se se tem de considerar a arte como o toque mais su­blime que o homem possui na sua vida, então, cada obra de Luís Soares é um voo mágico avivado pelas suas fantasias, que não nos enriquece apenas, mas que também nos transpor­ta a um mundo – que não este – mais íntimo, mais renova­dor do espírito que ateia os sentimentos porque faz da vi­da – através da arte – uma missão milagrosa e uma visão quimérica.

 

A CRÍTICA MANIFESTA-SE…

(Excertos de textos escritos por outros escritores/criticos de arte)

 

ÍNDICE

Elementos para uma biografia

Perfil e estatura de Luís Soares

Luís Soares, artista multidisciplinar e completo

Fórmulas, aspectos e características da sua personalidade artística

Exame teórico de Soares

Épocas, referências e períodos

Repertórios, itinerários e tendências

A obra em marcha

Uma visão inquietante da arte criativa

O atractivo misterioso

As fantasias animadas

A actividade e a experiência estética

A arte pictórica da figuração livre

O sentido cromático e a linguagem da cor

A graça formal: ânsia pela forma

Soares visionário

A imagem psíquica

A potência do signo

Um informalista resoluto

Um pintor visceral

Comentário pessoal sobre Soares

A crítica manifesta-se …

MÁRIO ANGEL MARRODÀN (1932-2005)

Poeta, Escritor, Ensaísta, Historiador, Critico de Arte e Académico

MÁRIO ANGEL MARRODÀN
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